Senhores,
Vai aqui uma opinião.
Nas últimas semanas, o Egtio passou por uma grande agitação popular e política. Em resumo:
1. foram realizadas as primeiras eleições após a queda de Mubarak,
2. o parlamento (eleito também recentemente) foi dissolvido pelos militares,
3. foi realizado o segundo turno, cujo resultado final ainda é, hoje, 19 de junho, desconhecido,
4. um decreto do exército, que está conduzindo a transição, diminuiu o poder do futuro presidente e garantiu que a nova Constituição será redigida sob a tutela dos militares também.
O que isso significa?
As interpretações divergem.
Um primeiro olhar indica que a revolução está morrendo e os militares continuarão no poder. É um cenário bem possível. Ao longo das ditaduras Nasser, Sadat e Mubarak, aproximadamente 60 anos, os militares se tornaram um poder com ramificações em todos os setores. São os donos das armas, de terras e de empresas, seu poder é político, militar e econômico. Exploram o medo (real ou inventado) de uma ascensão fundamentalista, argumento este que foi usado para dissolver o Parlamento.
O povo está cansado após um ano de protestos e mobilização.
Os resultados preliminares (a confirmar), indicam a vitória do candidato da Irmandade Muçulmana, um grupo religioso. Tal vitória pode levar a mais intervenções militares.
Devemos, por outro lado, pensar que o povo que tomou as ruas e a praça Tahrir em 2011 não sabia se haveria ou não repressão, e ainda assim lançou-se ao protesto. Em outras palavras, o povo despertou e percebeu que é também um agente político, e saiu disposto ao enfrentamento. Os militares sabem disso e as baixas patentes tem amigos e familiares entre os manifestantes. Esse mesmo povo pode sair às ruas novamente. Devemos também lembrar que mudanças estruturais são lentas e, por vezes, dolorosas. Cito como exemplo a Revolução Francesa, lembrando que os contextos são diferentes. Uso esse exemplo apenas para lembrar: revoluções podem ser longas, com fluxos e contra-fluxos, momentos de calmaria e momentos de intensa atividade. Ao estudarmos história, estudamos eventos com começo, meio e fim, e fazemos tal estudo de forma rápida e distanciada no tempo. O que se vê no Egito hoje é um processo em andamento, dia-a-dia. Ou seja, é cedo para tirar conclusões. A França, ao concluir seu processo revolucionário, deu origem ao Período Napoleônico, um período de centralização que, em parte, negava os princípios democráticos na política. Por outro lado, Napoleão incorporou ao seu governo diversas conquistas sociais impensáveis no absolutismo dos Luíses. Derrotado, Napoleão deu lugar a Luís XVIII, outro absolutista. O que parecia ser a derrota do ideal revolucionário e o esgotamento do ânimo popular revelou-se, mais tarde, um período de fermentação de novas revoluções, que explodiram em 1830 e novamente em 1848, com novos agentes sociais e políticos.
Insisto, os contextos são diferentes e as comparações devem ser feitas com cuidado. Ainda assim, temos nesse exemplo uma amostra de que a “queda de braço” entre diferentes projetos pode se arrastar por anos ou mesmo décadas até o triunfo das novas idéias ou a confirmação de sua derrota.
O Egito faz história a cada dia. Temos pressa, queremos saber o resultado, mas a velocidade dos fatos não é a velocidade dos nossos anseios.
Quanto à ascensão ou não dos grupos religiosos, se for essa a vontade popular, que se respeite o voto dos cidadãos. Democracia não é um modelo monolítico aplicável a todas as culturas de acordo com um padrão estabelecido no ocidente e que, mesmo dentro do ocidente, tem diferentes versões.
O que fazer? Esperar e acompanhar o processo, torcendo para que seja pacífico e que o resultado seja o melhor para a população.
Yallah Tahrir!


