Crise do Qatar

Pessoal, novidades no Oriente Médio. Além das crises já conhecidas e antigas (Palestina, questão curda, tensões no Iraque e Síria) esse ano nos apresentou com uma novidade: a crise entre Arábia Saudita (e aliados) e o Qatar. A Arábia justificou a crise com o Qatar elegando que o governo qatari financia grupos extremistas.

Para entender esta crise é preciso pensar alguns cenários em paralelo:
1. Hegemonia árabe saudita sobre os demais países do Golfo Pérsico e reações da Arábia Saudita a eventuais ameaças.

2. Disputa entre a Arábia e o Irã em diversos campos entrelaçados, de religião até política e economia.

3. Queda nos preços do petróleo e impactos sobre a Arábia Saudita.

4. Atenção aos termos: árabe é uma etnia e é um idioma, Arábia Saudita é um país, saudita é a forma de se referir a pessoas e instituições do país Arábia Saudita. Qatar é o país, qatari se refere ao governo ou habitantes.

Há décadas a Arábia de certa forma “manda” na região ou pelo menos nas monarquias do Golfo como Kuwait, Emirados Árabes, Bahrein e Qatar até recentemente.

A partir dos anos 1990 o Qatar passou a ter um novo governante e a exportar cada vez mais gás natural. O crescimento econômico trazido por este gás deu ao Qatar condições de buscar uma política mais independente, menos sujeita aos desejos sauditas. Esta nova política qatari se traduziu inicialmente em buscar mais visibilidade internacional, o que foi feito através dos esportes (financiamento de times europeus e sediar a Copa do Mundo de 2020) quanto através da mídia, com a criação e expansão da rede de TV Al Jazeera, a primeira rede internacional em língua árabe e hoje uma das maiores emissoras do mundo. A Al Jazeera pertence ao governo qatari e tem grande liberdade editorial. Na prática a rede de TV só não pode criticar o governo nacional mas pode se expressar como quiser sobre os governos dos países vizinhos, o que causou bastante mal estar em anos recentes. No mundo árabe é comum a falta de liberdade de expressão e a quase mudez sobre política e corrupção. Por ser uma TV via satélite a Al Jazera consegue chegar a diversos países com reportagens consideradas polêmicas.

O Qatar adota uma postura pragmática. Seus campos de gás estão em águas que também pertencem ao Irã, de forma que apesar da tradicional rivalidade árabes x iranianos e xiitas (Irã) x sunitas (maioria dos árabes) o governo qatari busca colaborar com o governo iraniano.

Ocorre que a Arábia e o Irã são arquiinimigos na disputa tanto dentro da fé islâmica quanto por influência política regional e internacional:

1. O Irã apoia o governo sírio de Assad e grupos xiitas, a Arábia apoia grupos rebeldes sunitas, muitos deles extremistas. Na crise síria o Qatar apoia grupos sunitas diferentes dos apoiados pala Arábia e muitas vezes rivais. Na crise do Iêmen o Irã e a Arábia também estão de lados opostos. Nesta crise o Qatar não se envolveu mas a rivalidade árabe-iraniana é clara.

2. Na crise da Líbia (Primavera Árabe) o Qatar apoiou a ação da OTAN contra a ditadura de Kadafi, ganhando destaque internacional. Foi o único país árabe a mandar aviões de guerra para a crise. O Qatar se dispôs também a comprar petróleo dos rebeldes para ajudar a financiar sua luta.

3. Na crise do Egito (Primavera Árabe) o governo qatari apoiou o presidente Mursi (eleito democraticamente e depois derrubado). A Arábia manteve-se alinhada aos interesses dos EUA e apoiou os militares que derrubaram Mursi.

Ou seja, o Qatar atua diversas vezes de forma contrária aos desejos sauditas e ainda por cima mantém boas relações com o Irã.

Com a atual queda nos preços do petróleo a Arábia viu-se sob pressão, o que faz também com que qualquer “concorrente” se torne uma ameaça.

A crise explodiu em junho de 2017 quando Arábia, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e diversos outros países (liderados pela Arábia) anunciararm um corte total de relações com o Qatar, incluindo o bloqueio de seus espaços aéreos, fronteira e aeroportos, buscando sufocar seu governo. A alegação de apoio qatari ao terrorismo deve ser desconsiderada. De fato o Qatar apoia grupos religiosos fundamentalistas mas a Arábia Saudita também, ou seja, o argumento moral é hipócrita e nesse sentido inválido. A lista de exigências para o fim do bloqueio apresenta, por exemplo, a exigência do fechamento da Al Jazeera e o fim das relações com o Irã. Nota-se, assim, que as verdadeiras razões dessa disputa encontram-se nesse rumo autônomo e concorrente que o Qatar tomou.

Isolar o Qatar mostrou-se mais difícil do que o esperado já que Irã e China são dois parceiros de destaque. A crise de fato afetou o país mas não o suficiente para uma mudança de rumo já que o governo qatari entende que se render aos desejos sauditas é quase como abrir mão em definitivo da sua soberania.

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