A disputa entre Arábia Saudita e Irã

Continuando o post anterior (Qatar), esta é uma das lutas indiretas travadas hoje no Oriente Médio. É o que a mídia chama de”guerra por procuração” ou “proxy war”, quando dois rivais não se chocam diretamente mas em diversas crises locais estes rivais apoiam lados diferentes.

Arábia e Irã disputam o poder no Oriente Médio. Esta disputa se dá de várias formas e assume diferentes roupagens.

A questão mais evidente é religiosa: a Arábia Saudita é sunita (vertente wahhabita) e é a terra natal do profeta Maomé e do próprio Islã. Meca e Medina ficam em território saudita. O Irã é o maior país xiita, ramo minoritário do islamismo como um todo mas majoritário no Irã, Iraque, Bahrein e Azerbaijão. Religiosamente há divergências grandes entre os dois grupos.

Etnicamente a Arábia é árabe (não confundir aqui nacionalidade e etnia, outros países são árabes também) e o Irã é de origem persa com diversas misturas e minorias que também se encontram nos países ao redor.

Politicamente a Arábia é um forte aliado ocidental, aliança essa que se reforçou a partir dos anos 1980. Hoje a Arábia é um dos maiores fornecedores de petróleo para o Ocidente, o que também cria um vínculo econômico. Internamente o sistema é uma monarquia absoluta (em processo de reforma com resultados incertos). O Irã tem como parceiros a Rússia e a China além do governo Sírio de Bashar Al Assad, o grupo Hizbollah no Líbano e forte influência sobre o Iraque (também de maioria xiita). Internamente há um regime republicano teocrático com alguma medida de participação popular (mas que pode ser tolhida pelo clero e pelo aparato político).

Ao longo dos anos 1980 e 1990 a relação entre sauditas e iranianos foi relativamente boa, ainda que nunca cordial ou amigável. Nesse contexto o Irã era o lado fraco da disputa, isolado pelo Ocidente desde a revolução de 1979 que derrubou uma monarquia pró-ocidental e instalou o regime religioso. A Arábia de certa forma “mandava” na região, tendo forte influência sobre as monarquias em especial. A partir dos anos 2000 o cenário começou a se modificar.

Em 2001 o governo dos EUA invadiu o Afeganistão e derrubou o grupo Talibã (fundamentalista sunita rival do Irã apesar de não ter havido confrontos diretos). Essa ação levou a um grande fluxo de refugiados Afegãos para o Paquistão e o Irã e ao mesmo tempo removeu um regime hostil a Teerã. O conflito que deveria ser breve tornou-se um atoleiro, o Afeganistão ainda está em crise e o Paquistão foi tragado para o cenário de caos também.

Em 2003 os EUA iniciaram outra guerra, desta vez contra o Iraque de Saddam Hussein. A queda de Saddam foi rápida, a guerra não. O Iraque é vizinho da Arábia, é também um país de etnia majoritária árabe mas sua composição religiosa tende mais ao xiismo (aprox. 60%) do que ao sunismo (40%) sendo que Saddam (sunita) perseguia os xiitas e assim servia como uma “barreira” contra o Irã também.. Além disso, os sunitas dividem-se entre árabes e curdos (20% da população) sendo que os curdos, apesar de sunitas, eram inimigos do governo de Saddam devido à forte repressão que sofrem sobre seu movimento separatista. Ou seja, Saddam mantinha uma ditadura sunita apoiada sobre 20% da população.

O caos no Iraque acabou excluindo os árabes sunitas do poder e levando curdos sunitas e árabes xiitas ao poder. Neste contexto os xiitas, antes reprimidos, passaram a ter muita força. O Irã soube se aproveitar dessa proximidade com o novo poder tanto militarmente quanto economicamente, sendo um dos maiores investidores na reconstrução do Iraque.

A guerra civil iraquiana está também na raiz da chegada dos extremistas na região (não havia terrorismo no Iraque de Saddam): primeiro a Al Qaeda e depois o núcleo dissidente ue deu origem ao Estado Islâmico.

Em 2006 o grupo libanês xiita Hizbollah suportou uma forte ofensiva do exército israelense. Israel declarou que só terminaria o conflito quando o Hizbollah fosse destruído porém o grupo resistiu e a crítica internacional aliada aos custos da operação e às baixas entre os israelenses levaram a uma retirada que o Hizbollah considera uma vitória. No Líbano o Hizbollah ganhou ainda mais força (o grupo é também um partido político). Seus aliados externos são o regime iraniano e o sírio.

Em paralelo a essa crise ocorreu a Primavera Árabe (2011). Este fenômeno abalou toda a estrutura de poder na região.

No Egito houve a queda de uma ditadura pró-ocidental e pró-saudita (Mubarak), substituída pelo presidente Mohammed Mursi (crítico da Arábia) que depois foi derrubado por um golpe militar que instalou o atual governo Al Sisi (novamente pró-ocidental/saudita). O país continua em crise.

A Primavera Árabe levou também a duas guerras civis: Síria e Iêmen.

Na Síria o governo Assad (Alauíta, um seita próxima aos xiitas) inicialente enfrentou diversas manifestações e revoltas mas conforme a crise se radicalizou e evoluiu para um conflito armado em linhas políticas e religiosas o governo conseguiu manter como apoiadores diversos grupos minoritários tais como xiitas e cristãos. A maioria dos opositores é sunita, com a presença de grupos extremistas apoiados pela Arábia, e há também grupos curdos que buscam independência. A Rússia apoia o governo Assad inclusive através de bombardeios. Assad está vencendo a guerra ainda que a crise possa se prolongar por bastante tempo. O Hizbollah libanês está presente no conflito como aliado de Assad e tem obtido diversos sucessos.

No Iêmen a Primavera Árabe derrubou o governo de Ali Abdullah Saleh e levou ao poder Hadi Mansour. O país apresenta uma divisão étnico-religiosa em que os árabes sunitas são 60% da população e os houthis xiitas são 40% da população. Os houthis conseguiram expulsar o governo Mansour da capital e das grandes cidades. A Arábia apoia os sunitas de diversos grupos e já promoveu bombardeios sobre o país, o Irã apoia os houthis xiitas que até o momento parecem estar vencendo com gastos muito menores para o Irã dos que os gastos sauditas com seus apadrinhados locais.

Por fim, a questão do Estado Islâmico: este grupo surgiu no caos da soma das guerras civis da Síria e do Iraque. Inicialmente o grupo obteve diversos sucessos que em muita cumpriam também a agenda saudita pois prejudicavam tanto o governo de Assad como o do Iraque e chegaram até a fazer ataques contra o Irã. Com o passar dos anos o EI foi aos poucos contido e derrotado, fortalecendo assim o governo sírio e o iraquiano.

A questão do Qatar foi tratada em um post específico.

Em termos de relações além da região, o Irã recentemente assinou um acordo com o ocidente a respeito de seu programa nuclear. Até aqui o acordo tem sido cumprido, o que aos poucos está normalizando a situação do Irã em termos econômicos e permitindo a retomada dos investimentos e do crescimento.

Na soma de tudo, o que se vê é um Irã livre de sanções e apoiador de grupos vitoriosos na Síria, no Iraque e no Iêmen além de contar com a boa relação com o Qatar. A força do Hizbollah no Líbano também é uma notícia positiva para os iranianos.

A Arábia reage através de seu príncipe herdeiro que na prática é quem governa desde o ano passado. A crise do Qatar é parte dessa reação, bem como o apoio aos sunitas no Iêmen.

Recentemente o premiê libanês declarou que estava renunciando ao cargo. A declaração foi feita pela TV a partir da Arábia, o que levantou algumas suspeitas. O governo libanês é uma coalizão que inclui diversos grupos e religiões, o Hizbollah é parte da coalizão. Especula-se que o governo saudita (apoiador até então do premiê libanês) tenha pressionado pela renúncia como forma de fazer mais um movimento contra a expansão dos seus inimigos regionais com destaque para a influência iraniana.

O mapa em anexo é anterior à crise do Qatar mas mostra essa rivalidade.

Este mapa mostra os campos de petróleo (preto) e gás (vermelho) do Golfo Pérsico.

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