Separatismos na Europa

Oi pessoal, mais um tema bem atual.

O separatismo hoje é uma das grandes questões na Europa. Este ano muito se falou, por exemplo, da questão da Catalunha.

Voltando no tempo, é importante nunca deixar de lado o fato de que o arranjo dos povos e países europeus é extremamente fluido e dinâmico. Fronteiras culturais e políticas variaram intensamente ao longo dos milênios, a sensação de uma relativa estabilidade é bastante recente e talvez otimista. Nem é preciso voltar muito no tempo: apenas no período contemporâneo o mapa da Europa foi redesenhado dezenas de vezes: período napoleônico, restauração dos governos pré-1789, unificações da Alemanha e da Itália, duas guerras mundiais, expansão e colapso da URSS, mais uma unificação alemã, divisão da Checoslováquia, fragmentação da ex-Iugoslávia. Países como Portugal, com a mesma fronteira desde a Idade Média são um caso raríssimo (e mesmo assim houve o período de domínio espanhol entre 1580-1640). Enfim, a história da Europa é a história do domínio de povos sobre outros povos e do refazer de fronteiras com base nos fluxos e contrafluxos dessa dinâmica política. O resultado é que dentro das atuais fornteiras há muitas minorias e povos conquistados com variados graus de insatisfação sobre esta realidade. Este é o combustível para muitos separatismos.

O mapa abaixo mostra o continente sob esta perspectiva com as diferentes línguas (povos) presentes em cada país. Veja que este mapa apresenta muitos pontos de contato com o ouro que virá mais abaixo.

Além da dinâmica descrita acima temos também questões políticas e econômicas que frequentemente caminham juntas: regiões conquistadas muitas vezes sentem-se oprimidas ou de alguma forma restritas pelos atuais pactos federativos ou arranjos de poder interno entre as várias regiões de um mesmo país.

O caso catalão é exemplar: a região é rica e contribui bastante para o PIB espanhol além de pagar impostos. A sensação entre os separatistas é que a Espanha não devolve à Catalunha benefícios proporcionais aos que os catalães fornecem à Espanha.

Mesmo quando não há uma questão financeira tão destacada pode existir o sentimento de restrição. A Escócia, hoje parte do Reino Unido, protagonizou um grande movimento separatista em 2014 que chegou perto de obter êxito no pleito realizado naquele ano. A Escócia não é mais rica do que a Inglaterra, mas sendo parte do Reino Unido diversas decisões políticas importantes, tomadas em Londres, vão contra os interesses escoceses. O Reino Unido é uma democracia mas devido ao seu arranjo político o parlamento apresenta um número de representantes ingleses maior do que o de representantes norte-irlandeses, galeses ou escoceses. Decisões vitais como o Brexit ou como a participação na Guerra do Iraque (2003) foram tomadas neste contexto e consideradas prejudiciais pelos nacionalistas escoceses.

Há separatismos (de maior ou menor grau de adesão popular) na Bretanha, Occitânia, Provença e Córsega (França), entre Flandres e Valônia (Bélgica), em Veneza e na Sardenha (para sair da Itália) e em diversos outros pontos do mapa europeu.

Todos eles partem de uma soma, esta é a chave: uma diferença cultural histórica, real, dá legitimidade ao movimento. Uma questão política ou econômica atual dá impulso no cenário atual, sejam críticas ao governo central, à política quanto aos imigrantes, aos impostos, qualquer coisa serve.

O caso do Brexit neste sentido é uma exceção mas traz em si fatores em comum com este quadro. O Brexit é a saída do Reino Unido da União Europeia. Ou seja, é um movimento de separação mas em outro sentido: um país abandonando um bloco e não uma região abandonando um país. Mesmo assim vale ressaltar: a decisão pela saida teve forte peso do voto dos ingleses ao passo que os escoceses votaram a favor da permanência na UE. Exemplo cristalino do caso em que ser parte de um país pode prejudicar a opinião de um determinado povo ai presente. O Brexit reacendeu o separatismo escocês já que os nacionalistas escoceses sentem que a Escócia mais uma vez será prejudicada pelos ingleses. Solução: sair do Reino Unido e ficar na UE com uma Escócia independente.

A União Europeia posiciona-se sempre junto aos governos centrais. Caso uma região de um país obtenha sua independência esta região está automaticamente fora da UE. Pode haver um reingresso mas este depende de começar o processo do zero. É uma ferramenta da UE para diminuir as agitações separatistas.

Em resumo, separatismos são reflexo das muitas diferenças culturais dentro da Europa. Como fenômeno político, partem da diferença para justificar o direito a autodeterminação e usam questões políticas e econômicas atuais para ganhar mais adeptos e impulsionar a causa.

Hoje é dia de UNICAMP, fica aqui como dica também (vai que cai né?). Boas provas aos que estão nesse momento do ano!

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