Ataque dos EUA, França e Reino Unido à Síria

Mais um capítulo na conturbada guerra civil da Síria: pela segunda vez desde que assumiu, Donald Trump ordenou um ataque ao regime sírio a partir da denúncia de que este regime teria usado armas químicas em sua luta contra os rebeldes.

Desta vez Trump recebeu apoio francês e britânico. O ataque dos EUA não foi surpresa, durante a semana o próprio presidente Trump anunciou a possibilidade, respondendo inclusive pelo twitter ao argumento russo de que os mísseis dos EUA seriam derrubados por mísseis russos. Cabe então lembrar, já desde o início, que a Síria é aliada da Rússia. No fundo esta é a razão deste recente ataque ocidental ser tão comentado: suas consequências podem envolver muitos mais do que o Oriente Médio.

Diversos posts aqui no HO já trataram de assuntos relacionados a este. Tentarei resumir neste post aqui o essencial, mas recomendo a leitura detalhada dos posts indicados em vermelho no texto.

Como tudo no Oriente Médio (e nesta crise em especial), o quadro é complexo.

Antes de mais nada, podemos dividir os caminhos de análise em dois: o governo sírio pode ser o autor do ataque químico ou pode não ser. Além de determinar a autoria, o que mais está envolvido? Qual o contexto mais amplo

Pensemos:

  1. Suponha-se que o governo sírio de fato efetuou este ataque. Neste caso, a resposta de Trump e seus aliados teria seria a resposta a uma violação de direitos humanos, um recado para o regime de Bashar Al Assad. Este é o quadro simples. Franceses e britânicos teriam apenas apoiado o que seria, assim, uma ação justa, quase humanitária. Pode ser apenas isso, o governo dos Assad (desde o pai do atual ditador até o próprio) é famoso por usa truculência.

 

  1. Suponha-se que o governo Sírio não efetuou o ataque, alguém mais o fez. Este cenário, mais complexo, é o que gera mais discussões e possibilidades, envolve diversos outros fatores que precisam ser postos em um contexto bem mais amplo. Por que este cenário também é possível? Em resumo: o governo sírio não precisaria usar estas armas agora já que a guerra está a seu favor. Se for este o caso, a quem interessa este uso?O quadro geral, o contexto, envolveria: os problemas que Trump enfrenta nos EUA (em especial as recentes polêmicas sobre o peso das notícias falsas-fake news em sua eleição e seu envolvimento com uma ex-atriz pornô), o atual quadro de tensão entre Reino Unido e Rússia (mais detalhes aqui), o quadro geral de tensão entre a OTAN/UE e a Rússia (mais detalhes aqui) e por fim a luta indireta travada entre Arábia Saudita e Irã (mais detalhes aqui) da qual a Síria é apenas um dos palcos e a derrota do Estado Islâmico, que mudou bastante o quadro da guerra civil síria.Começando pelo final: a derrota do Estado Islâmico (em termos militares e de domínio territorial, não de ideologia) criou uma nova realidade no conflito sírio. Neste cenário, o governo de Assad está em vias de vencer a guerra, seu inimigo mais poderoso internamente foi derrotado, a oposição está fragmentada e luta não só contra o governo como também há luta intraoposicional, o que nesse caso ajuda o governo Assad. Segundo esta análise, Assad simplesmente não precisaria usar justamente do recurso (armas químicas) mais polêmico e mais capaz de causar uma intervenção externa que a e ele só traz prejuízos. Entenda-se: não se trata de uma questão humanitária por parte de Assad, o governo sírio é notório por suas ações brutais e sanguinárias; apenas não faz sentido estratégico provocar uma reação externa neste momento e em um cenário que caminha para a vitória.A vitória de Assad não interessa ao Ocidente. Assad é aliado russo. Junto com o Irã e o Hizbollah libanês, a Síria forma um eixo contra-hegemônico em relação à presença estadunidense-europeia no Oriente Médio. A queda do regime de Assad é um antigo desejo, público, de Washington e muitos dos seus aliados, Israel e Arábia Saudita inclusive.Passando ao plano regional, temos então dois países claramente prejudicados por um vitória de Assad. Em outras palavras, dois países que tem interesse em uma intervenção externa que enfraqueça Damasco: Israel e Arábia Saudita.O envolvimento israelense se dá em outro cenário, paralelo: recentemente Israel bombardeou instalações militares do regime sírio. Como dito acima, Síria e Irã apoiam o Hizbollah libanês, uma milícia quase exército que é talvez o maior e mais capaz inimigo de Israel na região. Enfraquecer a Síria faz parte da estratégia maior de Tel Aviv.

    A Arábia Saudita é o outro país da região que busca ampliar sua influência, em especial sob a liderança do atual príncipe-regente-quase-rei Mohamed Bin Salman (príncipe herdeiro, vice-primeiro ministro e ministro da defesa), chamado na mídia hoje de MBS. Há anos a Arábia Saudita e o Irã travam a chamada “guerra por procuração” na região (este aqui é o post sobre isso). Os dois países são potências regionais rivais e aproveitam crises locais (Síria, Iraque, Qatar) para disputar poder. Por anos a Arábia foi o lado mais forte na disputa, mas o desastre da intervenção dos EUA no Iraque e a ascensão do Estado Islâmico/ISIS fizeram com que não só o Iraque flutuasse para a órbita iraniana como fizeram com que o Irã se tornasse peça-chave para a contenção do Estado Islâmico/ISIS, ampliando o poder do Irã na região. Foi aliás neste contexto que o ex-presidente Obama pressionou à conclusão de um acordo nuclear com o Irã que em resumo fez com que o Irã abrisse mão de seu programa militar (a confirmar) em troca da suspensão de sanções danosas à sua economia: hoje o Irã cresce em influência e poder econômico pois passou a ser necessário para a paz na região.

    A guerra da Síria, dentro desse quadro de “guerra por procuração”, apresenta grupos extremistas armados financiados pelo regime saudita, entre os quais se destaca a organização Jaysh al Islam. Em resumo, o intuito seria derrubar Assad, aliado do Irã, enfraquecendo assim a posição iraniana geral na região. Para Israel tal cenário seria igualmente proveitoso já que, sem a retaguarda síria, o Hizbollah teria mais dificuldades de receber apoio do Irã, ficando assim mais fraco (e de forma cíclica um Hizbollah mais fraco também enfraquece a posição geral do Irã). Coincidência ou não, Israel e Arábia Saudita se aproximaram bastante nos últimos anos, uma aproximação que a princípio pode parecer estranha mas que no contexto local é uma aliança de conveniência bastante lógica, já que ambos são inimigos do eixo Hizbollah-Síria-Irã. Ambos são, também, os maiores compradores de armas dos EUA na região, recentemente Trump esteve na Arábia para fechar um acordo histórico, um recorde em termos de valores em armas vendidas.

    Há um mês a Rússia avisou os EUA de que grupos extremistas teriam se apossado de armas químicas e poderiam usar para desestabilizar Assad ao provocar uma reação externa. Pode ser apenas cortina de fumaça para que o próprio Assad pudesse usar tais armas, mas também faz sentido pensar pelo viés russo: os grupos extremistas não tem força hoje para causar danos em grande escala a Assad, mas o ocidente tem essa força.

    Por fim, o cenário global mais amplo.

    Em casa, Trump enfrenta diversos questionamentos e problemas. Tais questionamentos colocam em dúvida sua relação com sua base de apoio. Há, em primeiro lugar, um questionamento sobre o papel que as redes sociais tiveram em sua eleição. Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, esteve neste semana depondo no congresso a respeito da influência que sua rede pode ter desempenhado ao, ironicamente, vender espaço publicitário para que grupos russos espalhassem notícias favoráveis a Trump e prejudiciais a Hillary Clinton. O caso é simples: Hillary tinha uma agenda claramente contrária a Putin, Trump tinha uma posição mais interessante para o líder russo, inclusive ao argumentar que os EUA estavam planejando reduzir sua participação na OTAN. A base política de Trump deriva em grande parte de setores mais conservadores e religiosos, setores que podem reagir muito mal ao recente escândalo que envolve o presidente e a acusação de que ele teria mantido um caso extraconjugal com uma ex-atriz pornô, posteriormente paga e ameaçada para manter o silêncio.

    E quanto à França e Reino Unido?

    Recentemente o Reino Unido e a Rússia passaram por mais um capítulo de relações tensas devido à acusação de envenenamento de um ex-agente russo em solo britânico (post aqui), o segundo caso em uma década mais ou menos.

    A França também tem suas razões para se envolver. Suspeita-se que a Rússia estaria por trás de ações profundamente prejudiciais aos interesses franceses: em caso análogo ao ocorrido na eleição de Trump, a Rússia estaria por trás de notícias falsas que teriam sido parte da campanha de sucesso do BREXIT, do apoio à candidatura (derrotada) nacionalista de Marine Le Pen no último pleito francês e de diversas outras votações em que o nacionalismo foi pauta importante, como na Itália recentemente. Em todos esses casos o eixo seria um só: ações russas estimulando o nacionalismo europeu com o objetivo de, ao fortalecer os nacionalismo, levar ao enfraquecimento da União Europeia (o caso do BREXIT é exemplar). Uma União Europeia fraca interessa aos russos pois coloca em compasso de espera novas expansões que só poderiam se dar para o leste (Ucrânia, por exemplo) e que invadiriam ainda mais o que Moscou considera sua área de influência. Além disso, a fraqueza da União Europeia reflete na OTAN, o bloco militar ocidental que também avança para o leste e é hoje uma das preocupações principais do Kremlin.

    Assim, o que vemos, sob essa análise, é um amplo jogo de xadrez em que se misturam diversos níveis, desde questões internas à Síria, questões regionais do Oriente Médio e questões de escopo global. Tanto é assim que houve, por parte de Trump, a preocupação de não atingir alvos russos de forma a não agravar o quadro em nível global, além de avisar sobre o ataque.

    Escrevo na manhã do sábado, 14 de abril, ainda sem uma resposta efetiva por parte dos russos. Fica aqui o quadro em aberto, independentemente do autor do ataque o caso envolve diversas ponderações e ficamos no aguardo da resposta de Moscou, que, até aqui, consistiu apenas em convocar uma reunião do Conselho de Segurança da ONU.

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