A origem da questão das Coreias

Oi pessoal,

Uma das notícias de maior destaque nas últimas semanas foi o histórico encontro entre Moon Jae-In e Kim Jong-Un, os governantes das Coreias do Sul e do Norte, no vilarejo de Panmunjom. os governantes fizeram um pronunciamento conjunto prometendo um novo período de paz, leia aqui a íntegra.

As fotos do encontro rodaram o mundo e trouxeram a esperança de que o conflito entre as Coreias possa finalmente acabar. De uma certa forma, a divisão entre os dois países é um dos últimos conflitos ainda ativos herdados da Guerra Fria.

O que foi a Guerra da Coreia e por que essa divisão ainda existe? Façamos um breve resumo.

Quando a Segunda Guerra Mundial se iniciou a península coreana fazia parte dos domínios do Japão, um domínio que havia começado no contexto da expansão imperial japonesa dos primeiros anos do século XX. Com a derrota japonesa (1945) a península (assim como a Alemanha) foi dividida em duas partes: uma sob influência socialista (norte – URSS) e outra sob influência capitalista (sul – EUA). A partir de 1948 surgiram governos locais, mas ainda ligados a essa divisão.

Paralelamente dois eventos importantes se desenrolaram. Esse foi o período em que a China fez sua revolução comunista (1949), alterando o balanço de forças na região e no mundo dentro da lógica da Guerra Fria e criando a divisão entre a China continental comunista e a ilha de Taiwan, capitalista, ainda reconhecida nessa época como titular da cadeira chinesa no Conselho de Segurança da ONU. Na mesma época a URSS temporariamente se absteve das votações do Conselho em sinal de protesto devido a desentendimentos com os EUA quanto à situação de Berlim (dividida) e outras questões ligadas a atritos com o ocidente na Guerra Fria que se iniciava (mas em que a URSS ainda não era uma potencia nuclear).

Em 1950 todos os fatores se juntaram. Com apoio soviético e chinês o governo da Coreia do Norte invadiu o território do sul. Faltou pouco para uma vitória completa.  A ONU logo reagiu aprovando uma intervenção armada, o que só foi possível pois a URSS estava boicotando as reuniões do Conselho de Segurança e o voto chinês neste mesmo conselho ainda pertencia a Taiwan, ligado assim aos interesses dos EUA.

Sob a bandeira da ONU foi então feita uma guerra para libertar o sul, mas que acabou se ampliando para uma invasão contra o norte. Neste momento a China comunista avisou que poderia entrar na guerra caso se sentisse ameaçada ao mesmo tempo em que, discretamente, a URSS tentava se desvencilhar da crise para não enfrentar diretamente os EUA. O aviso chinês foi ignorado e o norte foi invadido. A China não estava blefando: quando o norte estava praticamente derrotado, tropas chinesas entraram em peso na guerra, impondo à ONU um recuo que levou suas tropas de volta ao território do sul.

Iniciou-se assim a última fase da guerra, uma fase de equilíbrio de força e de desgaste que acabou por levar a um cessar-fogo assinado em 1953. O resultado final foi trágico e pouco vantajoso para todos os envolvidos: a península coreana estava arrasada, a guerra foi interrompida basicamente na mesma linha em que começou, famílias ficaram divididas e nunca foi assinado um acordo de paz definitivo.

Desde então o que se viu, até hoje, foi a manutenção desta divisão: uma Coreia do Sul capitalista e muito desenvolvida e uma Coreia do Norte fechada sob uma ditadura familiar, com sua população sofrendo as mais diversas carências. O norte conta com apoio chinês e russo, o sul com apoio ocidental.

 

A partir dos anos 1990 o quadro tornou-se ainda pior, com o surgimento da ameaça nuclear vinda do norte, ameaça esta que o governo do norte usou tanto para sobreviver quanto para barganhar. O mecanismo é simples mas ao mesmo tempo eficaz: o governo do norte testava mísseis ou bombas, mostrando ao mundo ter tais armas; seguia-se um momento de agitação e busca de diálogo ao mesmo tempo em que, na ONU, China e Rússia bloqueavam ações contra o norte. O resultado final, para evitar uma guerra nuclear, era atender as demandas no norte por ajuda, muitas vezes na forma de comida e auxílio técnico.

O quadro geopolítico alterou-se bastante nos últimos anos, em especial devido a mudanças nos EUA e na postura chinesa. A Coreia do Norte dificilmente conseguirá manter-se como está hoje. Este é o pano de fundo para a mudança que parece estar se anunciando. Em abril do ano passados fizemos essa live a respeito, vale a pena conferir.

Para completar este post faremos amanhã, dia 7 de maio, uma transmissão ao vivo pelo nosso canal no YouTube em que analisaremos tanto o cenário atual quanto as possibilidades futuras. A transmissão ficará posteriormente disponível para quem quiser assistir.

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