Crise da Síria completa oito anos

Em 2019 a crise da Síria completa oito anos.

Entenda aqui os pontos principais em um esquema de perguntas e respostas.
Nos links ao longo do texto há vídeos do nosso canal no YouTube que ajudam a aprofundar cada tema. Aqui há uma vídeo aula completa sobre o assunto e aqui a live do ano passado que também funciona como resumo. Este post atualiza esses vídeos e fica tudo certinho.
Alguns mapas e gráficos da BBC também ilustram o post.

Como começou?

A crise da Síria começou no contexto da Primavera Árabe, com um protesto em março de 2011 na cidade de Deraa. A forte repressão do governo levou os manifestantes, como em outros países, a mudar de foco: da busca por melhorias econômicas e mais liberdades para a queda do governo de Bahar Al Assad.

Quando se tornou complexa? Como a questão extremista apareceu?

No momento em que a população decidiu reagir de forma armada, as manifestações se tornaram uma guerra civil. O governo passou então a dar artilharia pesada e ataques aéreos.

Nesse contexto sugiram novas questões: envolvimento de forças estrangeiras e de grupos extremistas que se aproveitaram do cais instalado no país, com destaque para o ISIS/Estado Islâmico, que crescia também no contexto do vizinho Iraque, igualmente envolvido em um conflito.

A crise síria aos poucos assumiu contornos político religiosos: o governo Assad, formado com base nos alauítas (uma divisão do islamismo com contatos com os xiitas) é aliado do Irã (xiita) e do grupo Hizbollah libanês (xiita). Os grupos opositores eram basicamente sunitas, desde os modernos até os extremistas.

Em paralelo, os curdos, uma etnia, passaram a aproveitar a crise para buscar sua independência. A luta dos curdos é antiga nesse sentido.

A crise tornou-se então um complicado quebra-cabeças, pois o governo Assad, apesar de repressor, estava também enfrentando o terrorismo do ISIS/Estado islâmico, o que quer dizer que se o governo sírio caísse o ISIS/EI poderia ter uma base territorial ainda maior do que a que já tinha.

Os curdos, que representam uma ameaça separatista na Síria, Irã, Iraque e Turquia acabaram se tornando também peça-chave para derrotar o ISIS?EI.

Aos poucos, Assad passou a ser visto como o menor dos males (comparado à possibilidade de um “país” terrorista sob controle do ISIS/EI, que “exporta” militantes e uma ideologia radical e antiocidental. Ao mesmo tempo, o ocidente (Europa e EUA) buscava apoiar “rebeldes moderados”, capazes tanto de enfrentar Assad quanto o ISIS/EI.

Como ficaram os apoios externos?

Síria: apoios do Hizbollah libanês, do Irã e da Rússia (fornece armas e tem uma base no país).

Rebeldes sunitas “moderados” e curdos: lutam também entre si, mas receberam apoio ocidental em diferentes momentos. A Arábia Saudita e outros países sunitas também passaram a apoiar os rebeldes que não fossem os curdos, assim como a Turquia.

ISIS/EI: apoiava-se inicialmente na renda obtida pelo contrabando de petróleo obtido no Iraque (o território do ISIS/EI incluía partes da Síria e partes do Iraque). Suspeita-se de apoio não oficial da Arábia Saudita.

Crise da Síria passou a ser também mais um capítulo da disputa entre o Irã e a Arábia por mais influência no Oriente Médio.

Que rumou tomou a crise?

Aos poucos uma soma de fatores levou à definição do atual cenário: o governo e os curdos saíram fortalecidos, os rebeldes sunitas e o ISIS/EI foram derrotados ou quase derrotados.

Este cenário foi fruto de uma situação pragmática: o ISIS/EI tornou-se uma espécie de ameaça geral a todos os outros grupos, passando a ser visto como um mal até maior do que a ditadura Assad. Na Síria e no Iraque, os curdos também foram essenciais para a derrota do ISIS/EI, de forma que passaram a ser apoiados por forças externas. O apoio russo foi decisivo para a sobrevivência de Assad, assim como o apoio do Hizbollah. Os grupos que o ocidente apoiava não conseguiram se manter na luta.

Qual foi o impacto da crise?

O país está destruído e há milhões de refugiados. As cicatrizes internas dificilmente serão superadas em curto ou médio prazo. Os impactos da crise de refugiado são vistos em todos os países vizinhos e na Europa.


Qual o prospecto?

A guerra ainda não terminou mas algumas possibilidades já se apresentam. Uma delas é na verdade um desdobramento para outra crise: fortalecidos, os curdos agora podem buscar sua independência de fato, o que pode também repercutir em países vizinhos e trazer mais instabilidade à região. Não é o único cenário possível, há que se analisar as vontades de cada lado e o “fôlego” para continuar o conflito, mas um ponto é certo: a instabilidade permanece. Prever o futuro é difícil, mas uma nova guerra, dessa vez entre governo e curdos, é possível e de fato já existe, mas o foco maior era o ISIS/EI. Como essa crise vai se desenvolver é a questão.

O mapa abaixo mostra o quadro no fim de fevereiro de 2019