Democracia em Vertigem e o Oscar: gosto e Democracia.

democracia em vertigem

Olá, pessoal! Rodolfo escrevendo aqui. Sobre a indicação ao Oscar do documentário “Democracia em Vertigem”, uma reflexão sobre o debate que se instaurou nas entranhas da internet.

O documentário foi feito a partir de uma perspectiva pessoal da cineasta Petra Costa. Isso fica evidente logo no começo do documentário, com constantes referências feitas à sua história pessoal, bem como à história de vida de seus pais e de seu avô. Neste sentido, o documentário utiliza o recorte político que vai do Regime Civil-Militar à eleição de Jair Bolsonaro para a presidência como um contexto para a exposição das visões da cineasta sobre os governos de Lula, Dilma, o impeachment, o processo e a prisão de Lula e a atuação do juiz Sérgio Moro e dos procuradores e do STF na Lava Jato.

Como toda obra cinematográfica, “Democracia em Vertigem” é construído a partir de uma narrativa. E essa narrativa é feita em primeira pessoa, evidenciando ainda mais o caráter pessoal impresso ao vídeo. Exigir imparcialidade em uma obra cinematográfica é, no mínimo, ingenuidade (ou talvez desconhecimento sobre a sociologia da cultura). Não há imparcialidade total, absoluta, inequívoca em nenhuma produção cultural. Somos seres comunicativos, sociais, políticos, gregários e, por conta de todas essas características, expressamos através da linguagem, seja ela escrita, falada, cantada, pintada, esculpida ou cinematográfica, uma visão de mundo construída ao longo de nossas vivências. Um filme como “Guerra nas Estrelas”, ou mesmo “Vingadores”, por exemplo, é ideologia do começo ao fim, com narrativas maniqueístas e de redenção judaico-cristã permeando praticamente todos os personagens. Isso é um problema em si? Acredito que que não, pois seria impossível construir uma narrativa sem valores e símbolos que são constitutivos de um conjunto de ideias. A escolha de quem fala em um documentário, a edição, a proporção de tempo de falas, o encadeamento de cenas e a trilha sonora são decisões da direção, são recursos da narrativa audiovisual cinematográfica quer constroem, em 1h30, 2h de filme, uma atmosfera permeada de fatos e de emotividade. E a emotividade no caso de “Democracia em Vertigem” é elemento central, pois o documentário aborda uma perspectiva pessoal sobre fatos narrados.

Mas o documentário deveria concorrer ao Oscar? Ora, primeiramente, é necessário entender quais são os critérios de escolha da Academia para a elaboração da lista de Documentários que concorrerão à estatueta. Honestamente, como não sou cineasta, o máximo que posso expressar é meu gosto, permeado de subjetividades, sobre um documentário. Eu não entendo de direção, fotografia, sonoplastia ou qualquer outro requisito técnico para julgar se uma obra deve ou não concorrer ao Oscar. Eu poderia analisar a composição sociológica da narrativa adotada pela direção, seus componentes políticos e econômicos. Mas julgar se a obra deve ou não concorrer ao Oscar exclusivamente por concordar ou discordar do conteúdo me parece por demais egocêntrico.

E aqui entramos em um cenário interessante: vivemos uma época na qual, citando Gary Oldman, ator vencedor do Oscar, nos esquecemos de como conviver em sociedade. Conviver em sociedade é lembrar constantemente que o meu gosto não pode ser imposto como verdade inequívoca. Aliás, como já expus em vários vídeos aqui no HO, a diversidade é elemento fundamental para a existência da democracia. Ser capaz de tolerar gostos distintos do seu, desde que tais gostos não se constituam em violações de direitos dos indivíduos, é prática que nos permite viver a sociedade em sua pluralidade. Além disso, em uma democracia com liberdade de expressão e direito ao contraditório, caso um conteúdo exposto seja considerado equivocado aos olhos de alguém, somos livres para elaborarmos uma obra que exponha uma visão de mundo oposta. A internet está aí para isso: nunca foi tão fácil publicar uma opinião. Adotar um discurso de proibicionismo ou de invalidação imediata por conta da veiculação ou premiação de um conteúdo com o qual não concordamos só prova o quanto nossa sociedade está impregnada de traços da personalidade autoritária e abomina o debate.

Enfim, há uma diferença muito grande entre debater o conteúdo de documentários diametralmente opostos, seja “Democracia em Vertigem” ou “1964: O Brasil entre Armas e Livros”, e adotar uma postura de paladino da verdade por uma simples incapacidade de conviver com o contraditório, com o plural, com o pensar diferente.

Forte abraço a todos.