Oi pessoal, recentemente voltou à tona essa questão: o nazismo era de esquerda?

A resposta, clara e contundente, é não.

Este post parte de três pressupostos:

1 –  essa confusão conceitual pode ser por ingenuidade e desconhecimento de alguns fatos, eis então o que vamos trabalhar.

2 – entende-se “esquerda” como o amplo leque de visões políticas que derivam da teoria marxista e outras semelhantes, nascidas no século XIX.

3 – ninguém conhecia o nazismo melhor que o próprio Hitler.

Comecemos pela confusão mais rasa: o nome do partido.

Fato inegável, o termo NAZISMO deriva de nacional-socialismo.
Vale ressaltar uma primeira questão: a China, ao pé da letra, chama-se “República Popular da China”. A Coreia do Norte chama-se “República Popular Democrática da Coreia do Norte”.

Nomes de partidos e governos não necessariamente refletem suas práticas, a não ser que aceite-se que a Coreia do Norte de fato é uma democracia, ponto difícil de manter em um debate conceitual a partir das evidências.

Veremos, adiante, que o próprio Hitler discordava que o marxismo e o socialismo fossem a mesma coisa. Aqui caímos em uma sinuca: aceitar a visão de Hitler sobre o socialismo requer, no mesmo ato, aceitar que marxismo e socialismo são completamente diferentes.

Com a  palavra, o próprio Hitler: “Socialismo é a ciência de lidar com o bem comum. Comunismo não é socialismo. Marxismo não é socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Eu irei tomar o socialismo dos socialistas”, entrevista ao jornal britânico The Guardian, em 1923.

E a propriedade privada?

Mais uma vez, fala Hitler: “Meu socialismo nada tem a ver com marxismo. Marxismo é anti-propriedade. O Socialismo verdadeiro não é”. Veja a expressão que ele usa, socialismo verdadeiro, em oposição ao marxismo. Entrevista ao Sunday Express.

“Eu insisto absolutamente em proteger a propriedade privada… precisamos encorajar a iniciativa privada!”. Hitler’s Secret Conversations traduzido por Norman Cameron e R.H. Stevens. Farrar, Straus and Young, Inc. 1953. p. 294

Judeus e marxismo contra a Alemanha

Em seu livro Mein Kamp (minha luta), Hitler assim escreve:

“Nesse tempo, abriram-se-me os olhos para dois perigos que eu mal conhecia pelos nomes e que, de nenhum modo, se me apresentavam nitidamente na sua horrível significação para a existência do povo germânico: marxismo e judaísmo” (página 12).

“O marxismo aparece como a tentativa dos judeus para enfraquecer, em todas as manifestações da vida humana, o princípio da personalidade e substituí-lo pelo prestígio das massas. Em política, o marxismo tem a sua forma de expressão no regime parlamentar cujos efeitos sentimos desde as menores células da comunidade até as posições mais eminentes do Reich. No que diz respeito à economia, o efeito disso é o estabelecimento de uma organização que, na realidade, não serve aos interesses do proletariado mas aos propósitos destruidores do judaísmo internacional.” (página 185).

Luta de classes X União nacional

Outro ponto extremamente importante em termos conceituais é este.

É amplamente sabido e divulgado que o marxismo se apoia na luta de classes, na ênfase sobre o proletariado e na revolução proletária. Já o nazismo de Hitler apoiava-se na união racial em torno do projeto de nação alemã defendido pelo governo. Ou seja, numa visão simplificada: se o marxismo prega unir proletários contra patrões, o nazismo prega a união de todas as classes em prol do país e a união da “raça” germânica contra os inimigos internos e externos.

“Exigimos que o Estado cumpra as justas reivindicações das classes produtivas sobre bases de solidariedade racial. Para nós, Estado e raça são uma única coisa”.

Aliás, como visto neste mesmo post, Hitler associava os judeus ao marxismo, uma única ameaça (“o marxismo aparece como a tentativa dos judeus para enfraquecer, em todas as manifestações da vida humana…”). É amplamente sabido que os judeus eram um dos principais inimigos do nazismo, ponto focal de seu discurso de pureza racial. Se o marxismo é associado ao judaísmo, certamente não seria bem visto pelo nazismo.

Conclusão

O que se fez aqui foi apenas uma pequena amostra da importância de ir às fontes quando se discute política e conceitos. Se o assunto é nazismo, então vejamos o que seu criador tem a falar antes de compartilhar simplismo pautados no nome do partido. Sabemos bem, somos brasileiros: nomes de partidos não querem dizer nada. A partir de falas e escritos de Hitler vemos seu posicionamento. Hitler de fato fala em socialismo, mais um “socialismo dele (Hilter)”, diferente do marxista. Ou seja, ele usa o termo mas com outro recheio, outra substância. Assim sendo, se a substância é outra, as associações são outras e o termo, sozinho, fica vazio.

Na já citada entrevista ao The Guardiã, Hitler diz:

“Socialismo é uma antiga instituição ariana, germânica. Nosso ancestrais tinham terras comuns. Cultivavam a ideia do bem comum. O marxismo não tem o direito de se disfarçar de socialismo. Socialismo, ao contrário do marxismo, não repudia a propriedade privada”.

O objetivo aqui é, conceitualmente, desmontar essa questão sobre ser de esquerda ou não o nazismo.

Outra confusão: capitalismo. Hitler nunca foi anticapitalista. Ele era certamente antiliberal, mas liberalismo e capitalismo são conceitos diferentes. Existe o capitalismo liberal, como existiu o mercantilista e o monopolista.

O nazismo é autoritário? Sim. A União Soviética também era? Certamente. Ambos eram ditaduras. O corre que há ditaduras de todos os campos políticos, não só de esquerda. Esta ver os governos na América Latina: de um lado a ditadura cubana, de outra Brasil, Chile e Argentina. Todas antidemocráticas, nem todas no mesmo campo ideológico.

Por fim, basta ver os atuais movimentos neonazistas e suas filiações ideológicas: nenhum desses grupos se identifica como esquerda. Ou ver as declarações do governo alemão sobre o nazismo, também não identificado como de esquerda.