Revoluções, Nazismo e História: estrutura e contexto

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AS COMPARAÇÕES HISTÓRICAS E SEUS RISCOS.

Comparações são sempre arriscadas. Principalmente em História, Sociologia, Economia e Política. Comparações exigem um exercício de “equalização” (das vozes de um tempo) de condições estruturais, de contexto. Por analogia, estas “equalizações” funcionam como uma plaina (ferramenta da carpintaria): a plaina elimina as imperfeições da superfície de uma peça para que esta se encaixe com exatidão no projeto pensado pelo marceneiro. Contudo, em Ciências Humanas (sim, considero a Economia uma ciência humana), aplainar os contextos sem um devido cuidado pode causar mais prejuízos do que ganhos.

APLAINANDO O SOLO E O TEMPO: O QUE É REVOLUÇÃO?

Quando debatemos uma revolução, temos sempre diante de nós um contexto que, ao menos estruturalmente, apresenta alguns elementos em comum: um sistema de governo constituído, marcado por uma condição de desigualdade latente e evidente, submetendo uma maioria significativa a privações materiais, jurídicas e simbólicas.

Tal submissão é reforçada pela imutabilidade da estrutura social que, por sua vez, é justificada por uma visão de mundo dogmática, embebida em valores geralmente ligados ao misticismo (não importando aqui a quantidade de divindades do panteão).

Para coroar este cenário pré-revolucionário, somemos a forte atuação do poder de polícia do Estado, repressor de qualquer tentativa de questionamento ao status quo, tendo um braço jurídico na censura e na condenação arbitrária de pessoas, e outro, violento, encarnado no monopólio do uso da força.

Por fim, a eclosão da revolução acontecerá devido a algum fator conjuntural, algum fato que desencadeia uma insatisfação e questionamento da ordem estabelecida. Além disso, tal insatisfação encontra nesse contexto um conjunto de ideias e explicações que satisfaz seus anseios por mudança e promete que o futuro será melhor. Este futuro melhor (utopia?) será alcançado desde que as classes que governam sejam apeadas do poder.

E, é claro, como o Estado e o Governo, encarnados nas classes privilegiadas, possuem o monopólio do uso da força, a luta será inevitável. Uma “revolução incruenta” (sem derramamento de sangue) não é a regra. Ao contrário, é uma exceção que deve ser explicada a partir das características particulares de seu contexto. Uma “revolução incruenta” é tão rara que não podemos tomá-la como um modelo. No geral, revoluções são violentas.

E O QUE DESEJAM REVOLUÇÕES?

A destruição de um Estado, de um Governo e de uma Sociedade, incluindo aqui a sua cultura.  E essa destruição é desejada por um motivo basilar: os revolucionários entendem que as reformas não serão eficientes para mudar a estrutura que causa toda sorte de violência no Estado, no Governo e na Sociedade. Resumindo, a revolução sempre se coloca com um ideal de liberdade que só pode ser alcançado mediante a destruição das condições que permitem uma classe diminuta dominar a maioria. Neste sentido, a revolução sempre deseja a destruição de uma casta ou classe. Essa destruição não é sinônimo de execução de todos os membros desta classe ou casta. O conflito revolucionário, por óbvio, resultará em um enfrentamento violento. Contudo, em tese, uma vez superadas as condições estruturantes que permitiam a existência da dominação, o conflito cessaria. Tudo isso, em tese. Resumindo, a revolução luta pelo extermínio de uma estrutura, não pelo extermínio absoluto de um grupo de indivíduos. Seu objetivo não é executar uma limpeza étnica.

O PROBLEMA DA REVOLUÇÃO.

E aqui está um problema que geralmente se apresenta aos revolucionários no momento seguinte à vitória: a contrarrevolução será imediata. A guerra da revolução passará a existir como uma guerra civil, declarada ou não. O governo revolucionário deverá adotar medidas de repressão às tentativas contrarrevolucionárias. Portanto, mais violência, mais conflitos, mais tensões.

E é neste ponto que as coisas podem desandar. Em nome da preservação das conquistas revolucionárias, o processo pode tomar um rumo que se distancia dos objetivos iniciais, encaminhando-se para decisões mais autoritárias, tais quais o Terror Jacobino, a dimensão política do stalinismo e a Revolução Cultural chinesa. Contudo, estes são episódios posteriores ao evento revolucionário. Logo, identificar a Revolução Russa como sinônimo de stalinismo é um erro não só conceitual, mas de contexto histórico. Por mais que os textos revolucionários defendam medidas violentas, seus objetivos são claramente de oposição a uma ordem constituída. Seria uma violência como meio, não como fim. Se a partir da consolidação da revolução se desenvolve um governo autoritário, há que se estudar em qual momento houve essa mudança de perspectiva. Equiparar,  sem “equalizar” ou “aplainar”, o momento revolucionário ao seu desdobramento em forma de governo constituído é um tipo de equivalência que não ajuda na elucidação das questões de contexto que são obviamente ligas entre si, mas também evidentemente diferentes em estrutura.

E O NAZISMO?

E o nazismo? Não é possível afirmar o mesmo sobre o nazismo? Não teria acontecido uma subversão de seus objetivos e valores iniciais após a sua constituição como um regime de governo? A resposta é não.

O Nazismo não visava lutar contra um regime instituído, contra um governo ou contra uma situação de desigualdade para promover, a partir da derrubada deste governo ou sistema, uma condição de igualdade. O Nazismo, desde seu início, afirmava que todos os problemas da Alemanha nas décadas de 1920-30 seriam decorrentes de um governo liderado por raças inferiores que, conscientes da superioridade da raça germânica pura, executavam políticas que mantinham os arianos alijados do poder político, militar e econômico. A construção do discurso nazista não tem como alvo um governo ou uma estrutura de Estado, uma classe ou uma casta. O regime nazista tem como alvo as raças humanas consideradas por ele como inferiores. Ciganos, negros, homossexuais, deficientes, judeus, Testemunhas de Jeová, não importa. Em não sendo um ariano puro, o indivíduo se tornaria um sub-humano, um inferior, alguém que, na lógica nazista, devido à sua inferioridade racial, deveria servir à raça ariana superior como escravo. Essa lógica é fundante do pensamento nazista. Afirmar que foi ao longo da 2ª Guerra Mundial que este pensamento se desenvolveu no nazismo é não conhecer a História ou, pior ainda, distorcê-la propositalmente. As chamadas leis de Nuremberg, leis que determinavam a classificação racial na Alemanha, datam de 1935. A 2ª Guerra Mundial começou em 1939.

HISTÓRIA É CIÊNCIA QUE DESFAZ FALSAS EQUIVALÊNCIAS.

Logo, comparar a Revolução Francesa ou a Revolução Russa ao Nazismo é um exercício de retórica que tenta “equalizar” eventos que partem não só de contextos de origem diferentes, como também de objetivos distintos. Afirmar isso não significa defender o Terror Jacobino ou a política interna stalinista. É possível desenvolver uma crítica aos devaneios de Robespierre e aos expurgos de Stalin sem com isso resumir a Revolução Francesa a Robespierre e a Revolução Russa a Stálin. No caso do Nazismo, não há como desassociar a questão racial proposta por Hitler desde muito antes de sua chegada ao poder dos desenvolvimentos ulteriores (1933-45).

Temos que tomar cuidado com essa prática perigosa da falsa equivalência, essa prática semelhante ao duplipensar que George Orwell nos aponta em sua obra “1984”.

É possível sim realizar uma crítica ao Nazismo e ao Stalinismo sem efetuar a falsa equivalência entre eles.

É possível sim diferenciar o Terror Jacobino das dos movimentos do início da Revolução Francesa e da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

Não é possível separar o Nazismo de seu caráter racial e anti-humano.

A falsa equivalência é apenas isso: falsa. Nada além disso.