Tashkent

Após a introdução feita no post anterior, vamos à viagem de fato.

A viagem começou pela capital, principal ponto de entrada no país.

O visto deve ser pedido com antecedência e tem a burocracia típica dos países da ex-URSS. É necessária uma “carta convite” emitida por algum hotel ou agência de turismo local (e que não é de graça, uns US$80 por pessoa). Eles fazem todo o trâmite e enviam um comprovante. Recebe-se o visto (já comprovado) no aeroporto, válido pelo tempo da viagem e que custa mais US$50 por pessoa. Este sistema está em transformação, uma forma de facilitar o turismo, convém verificar no caso de uma viagem ao país, mas estava em vigor até 2018. Em cada lugar onde o turista se hospedar será emitido um “certificado” com a data de estadia. São vários pais soltos mas atenção: no momento de deixar o país eles serão recolhidos e colocados em sequência por data e todas as datas devem bater. Se houver um período não registrado o turista pode ser chamado a esclarecer. Guarde bem esses papéis. Além disso, os próprios hotéis verificam os pais dos hotéis anteriores. Em outras palavras: ficar hospedado em locais não autorizados ou não reconhecidos pode ser um problema. Não sei de qual tipo, não tentei rs.

Os vôos mais fáceis saem via Turquia (Istambul), operados pela Turkish Airlines. Há outro vôos diretos mas a Turkish tem mais opções.


Aqui uma curiosidade. Não é fato muito conhecido, mas a maioria dos povos da Ásia Central é da mesma origem dos turcos (a exceção são os Tadjiques). Aliás, o certo seria o contrário, os turcos é que são aparentados dos povos da Ásia Central, chamados “turquicos” ou “turco-altaico”. O povo que atualmente chamamos de turco migrou em ondas sucessivas até onde hoje é a Turquia. Há uma clara conexão linguística, uma família de idiomas e cultura que são na verdade galhos do mesmo tronco.

Tashkent não foi uma cidade importante da Rota da Seda mas é antiga, já era um oásis e ponto de parada de caravanas. Quem transformou a cidade em capital foi a URSS, então a cidade tem algo de mais moderno (quando comparada aos centros históricos como Samarcanda e Bukhara), mas um moderno meio século XX soviético, uma mistura de herança histórica milenar, religião muçulmana e laicismo soviético, tudo meio “vintage” como disse um amigo. Não é o país muçulmano estereotipado, aquele de véus, mesquitas e minaretes pra todo lado. Há momentos em que quase não se percebe a religião. A cidade é também bastante arborizada em certas partes e há alguns bons parques,o que suspeito que colabora (e muito) para tornar o clima mais ameno. Comparados aos mais de 40 graus das outras cidades, os 30-35 da capital são ótimos.

Passei pela capital na chegada e na saída, ao todo quatro dias.

Na chegada a hospedagem foi no hotel que antigamente abrigava a “nomenklatura” soviética e que é hoje um marco. Fica na praça Amir Temur (como chamam aqui Timur/Tamerlão). O centro da praça aliás tem um grande estátua desse que é o grande herói histórico do país, numa certa liberdade histórica já Timur não era usbeque de origem.

De cara me chamaram a atenção as avenidas largas (até oito faixas) e os prédios baixos. Fui à torre de TV, uma das mais altas do mundo (eles fazem questão de mostrar através de maquetes comparativas), de onde se vê toda a cidade a partir de uma plataforma de observação. Aos pés da torre mais dois pontos de interesse: um grande restaurante especializado em Plov (prato nacional, arroz com carne, legumes e tempero) e um parque onde há um memorial e um museu em homenagem às vítimas da perseguição política ou, mais especificamente, aos perseguidos pelos russos e soviéticos. É curioso pois a iniciativa foi do ex-presidente Islam Karimov, aliás onipresente, ele mesmo um ditador conhecido por perseguir seus rivais.



Outro ponto alto é o que sobrou da parte mais antiga da cidade, onde fica o Chorsu (mercado municipal, um grande domo cercado de apêndices onde se vende de tudo) e a cidade histórica, incluindo um belo conjunto de mesquita, madrassa e museu onde há um Corão usado pelo terceiro califa, Osman. Tashkent nunca foi muito destacada e sofreu um grande terremoto que destruiu muitos dos prédios antigos.


Para o turista o metrô é o transporte ideal, o que em si já é um passeio, o metrô é uma obra de arte. Os trens são antigos mas as estações são incríveis, vale a pena descer uma por uma. Aliás, falando em transporte sobre trilhos, os trens comuns são muito bons e o trem expresso, Afrosiob, deixa para trás todos os trens europeus que já usei. E deixa com folga.Outra curiosidade: todo carro é um pouco taxi (mesmo havendo taxis oficias. Estenda a mão, indique para onde vai, combine o preço de antemão e aproveite um passeio no carro de um morador local.

 

 

 


Em termos culturais e políticos, percebe-se hoje um esforço dos governos passado e atual (Karimov e Mirzayoyev, ambos pós-URSS) para criar uma nova identidade que rompe com o domínio russo-sovietico e busca fazer uma mistura do passado, juntando num mesmo caldeirão as raízes sogdianas, persas, mongóis, turquicas de vários grupos e a herança zoroastrista junto com a muçulmana no que parece ser um projeto bem sucedido. Karimov restaurou desde mesquitas e madrassas até ruínas zoroastristas, ergueu estátuas por todo o país em homenagem aos filhos famosos dessa terra e, claro, ergueu algumas em sua homenagem, bem como deu seu nome a muitas avenidas, ruas, aeroportos e afins. A presença russa ainda é forte, há obras da Gazprom em muitas regiões, bem como se nota também o crescimento da influência chinesa (fotografei a placa de uma obra financiada pela China).

Como dito antes, religião é algo bem menos intenso do que um estrangeiro esperaria de um país muçulmano. Véus não são onipresentes (as vezes são até minoria), pouco se ouve o chamado das mesquitas nas horas de oração, ao que tudo indica tanto a longa tradição de convivência de vários povos quanto a influência laicizante soviética deitaram raízes profundas. Numa comparação minha, são “muçulmanos não praticantes”.

Passar esses dias na capital foi muito bom para conhecer a face moderna do país e não ficar com uma imagem estereotipada de um país que é só passado e cidades históricas.