Rota da Seda – parte 4: Bukhara

Mais um post sobre a Rota da Seda e a viagem do prof. Daniel ao Usbequistão

Este é o quarto post dessa série. Para ver os anteriores:
Parte 1: Rota da Seda
Parte 2: Tashkent
Parte 3: Samarcanda

Três dias em Bukhara, a cidade mais legal do Usbequistão, que é o país mais legal do mundo.

Cheguei no trem expresso vindo de Samarcanda. As surpresas já começaram aí aliás, o expresso é moderníssimo, super confortável e atingiu 227km/h segundo a informação nas telas.

O hotel era um antiga madrassa (escola religiosa) erguida nos idos de 1840. Esperei a temperatura baixar um pouco (passava dos 40) e em torno das 16h resolvi sair para um primeiro reconhecimento. Já de cara entrei em um dos vários mercados cobertos encimados por domos que são típicos do país.

Começou a volta no tempo.

Tashkent é uma cidade grande, moderna. Samarcanda tem seus monumentos maravilhosos mas eles estão espalhados, ilhas de passado distante pontilhado uma cidade também. Bukhara não. O centro histórico é fechado aos carros, os prédios são todos antigos ou de construção moderna mas com estilo de tempos idos. Bukhara te transporta.

As roupas à venda, o som dos artesãos trabalhando, o cheiro dos temperos, tudo ecoa milênios de histórias. Falta pouco para uma caravana de camelos romper por uma esquina qualquer, não destoaria nem um pouco, estranho é não acontecer.

Os vários bazares interligam ruas e pátios, os pátios são ladeados por mesquitas, madrassa e minaretes. Por fim, do lado oeste do centro histórico fica a enorme fortaleza chamada Ark, palácio de governo do que já foi aliás a capital de um emirado.

Entre uma das praças principais e a fortaleza fui abordado, gentilmente, por um vendedor chamado Ozil. Perguntou se eu queria água, ao que respondi que já tinha comigo na mochila. Eu queria chegar à fortaleza, era um dos pontos altos para mim. Ele perguntou se eu não queria mesmo, afirmou que a água estava bem gelada, ao que prometi que na volta eu compraria.

Cumpri a promessa, ao voltar da fortaleza minha água já havia acabado. Entre o meu português e o usbeque dele consegui entender que ele coleciona cartões postais, mas que do Brasil não tinha nenhum. Prometi que voltaria novamente mais tarde e que mandaria um cartão quando voltasse ao Brasil mandei a ele, ali mesmo, uma bandeira brasileira pequena que tinha comigo. Ela abriu um sorriso enorme e dourado, há muito ouro nos dentes aqui.

Num passeio tarde, já de noite, passei novamente por lá, ele convidou pra conhecer a sua loja mas já era tarde, prometemos voltar.

Ao acordar no segundo dia decidi ir antes para o outro lado do centro, conhecer uma pequena mesquita, a Chor Minor.

Nem bem virei a esquina e parei para fotografar a  parede de  uma casa bem antiga, já um pouco desgastada, de forma que se vê a estrutura de vigas  de madeira e barro. O dono da casa estava por perto e me convidou a entrar e fotografar o interior da casa, onde outros dois senhores tomavam café da manhã. Mostrou-me as fechaduras e trincos antigos e até me convidou para sentar. Não fiquei muito tempo, mas não saí sem antes comer um pedaço de um melão delicioso. Saída casa meio sem saber o que tinha acabado de acontecer, sem entender tanta abertura e hospitalidade.

O caminho até a mesquita foi rápido e a mesquita em si não apresenta muito o que ver (a não ser ela própria, que é linda). Mas em frente a ela há uma lojinha repleta de broches, medalhas e moedas comemorativas da época da URSS (afinal, o Usbequistão era uma das repúblicas). Não consegui sair sem comprar uma das Olímpiadas de 1980 (Moscou) é uma comemorativa da missão de Yuri Gagarin em 1961.

Depois do almoço me lancei novamente aos bazares.No caminho novamente pareipara conversar com o Ozil e comprar mais de sua água gelada. E ali fiquei por muito tempo. Puxou  cadeiras, me apresentou sua esposa (de nome difícil), mostrou sua coleção de postais. Papo vai, papo vem, mostrou-me as obras de sua nova loja e convidou-me a conhecer sua casa, a única da região que ainda é antiga, mais de cem anos, em meio a tantas novas. E quando percebi estava sentado em tapetes, que é o que se faz por aqui, comendo amendoins e vendo as fotos da peregrinação de Ozil a Meca em 2006, relato este que foi seguido da história de seu casamento e do casamento dos filhos.

Seus filhos chegaram, o gato chegou querendo comida e ele precisava voltar ao trabalho, não sem antes deixar seu endereço para mandar postais e me convidar a ficar em sua casa da próxima vez. Terminou por me dar uma garrafa de água e um pequeno porte de cerâmica. Assim terminou o dia.

O terceiro dia foi dia de non. Non é o pão típico do Usbequistão, redondo e de bordas altas com um meio mais baixo, temperado com sementes e cominho. Suas origens remontam à época dos persas, do zoroastrismo que ainda vem gravado na massa. São vários símbolos possíveis (assim como o non também varia em receitas e de uma cidade para outra), geralmente padrões geométricos, estrelas ou espirais.

Há uma certa etiqueta: parte-se o non com as mãos, arrancando pedaços (apesar de alguns hotéis e restaurantes mais voltados aos estrangeiros cortarem em fatias, sacrilégio!). Não se vira o non para baixo, jamais. Por ser um pão de longa duração, quando alguém parte em viagem também é tradição que o viajante arranque um pedaço para comer e que o resto fique pendurado, à espera, para ser comido na volta.

Nas ruas as pilhas de non são cena comum, em carrinhos e barquinhas. A forma de assar é curiosa também, a massa crua é grudada nas paredes internas de um grande forno como os de pizza.

Pois bem, andando pelas vielas fora do circuito histórico deparei com a casa de um padeiro. São dois irmãos e o filho de um deles. Eu já tinha sentido o cheiro da rua e, ao olhar em volta, vi uma porta baixa com uma escada descendo para um meio subsolo e três nons pendurados como se fossem placas, semiótica usbeque.

Me aproximei, perguntei se havia pão e da porta da rua vi a porta da sala do forno. Expliquei de onde vinha, vieram as tradicionais menções ao nosso futebol e enfim, em coisa de dois minutos lá estava eu conversando com o padeiro na sala do forno.

Dei sorte. Uma fornada havia acabado de sair e outra iria pro forno em breve. O dono da casa limpou as mesas, espalhou as bolas de massa, esticou cada uma com um rolo de madeira (como os de macarrão) e me explicou que elas precisavam descansar dez minutos. Nesse meio tempo me contou que assa mil nons pequenos e quinhentos grandes por dia.

 

Quando já findavam os dez minutos seu irmão, que até então jogava baralho com o menino, desceu à fornalha e pegou os instrumentos que fazem as marcas no pão, uma espécie de carimbo com pequenos pregos que fazem os pontos dos desenhos. Esticou mais um pouco as massas, marcou cada uma, temperou e, com uma espécie de bandeja de madeira, começou o valente processo de entrar e sair do forno em rápida sucessão, colando os nons às paredes.

Conversamos mais um pouco e decidi ir embora, afinal já havia nons prontos, eu não precisava esperar para ver o resultado e tinha ainda outros passeios a fazer.

Comprei um non pequeno fresquinho, ainda quente da última fornada, paguei o equivalente a R$0,50, arranquei-lhe um pedaço e sai pela rua saboreando o pão que, aliás, estava ótimo.

E assim foi a passagem por Bukhara, a cidade mais legal do Usbequistão, que é o país mais legal do mundo.