Khiva, última parada da viagem pelo coração da Rota da Seda.

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Parte 1: Rota da Seda

Parte 2: Tashkent

Parte 3: Samarcanda

Parte 4: Bukhara

 

Khiva é a menor e mais remota das cidades usbeques da Rota da Seda, parte de uma vertente do caminho que depois se divide e segue para o Turcomenistão e para o Irã ou vai em direção ao Casaquistão e a Rússia.

É também a cidade mais preservada em termos de conjunto arquitetônico, toda a parte intramuros manteve quase intactas suas características originais, a ponto de ser todo o conjunto tombado pela UNESCO nos anos 1960, pelo menos no que diz respeito a manter o exterior dos prédios com seu aspecto histórico. Mesmo pequena e distante, teve também seus dias de glória e de ser capital, foi  sede de um khanato a partir do século XVII.

Ichan Kala, o centro histórico onde fiquei, é uma fortaleza dentro de uma cidade murada, um grande conjunto de madrassas e mesquitas. Hoje a maioria das estruturas se transformou em museus, hotéis e oficinas de artesãos de diversos tipos, com destaque para o entalhe em madeira e a fabricação de tapetes, lenços e roupas de seda em geral. Este é um traço interessante e que se vê nas cidades históricas todas: os prédios históricos não se tornaram apenas museus, continuam servindo a diversos propósitos, alguns deles mantendo as milenares tradições comerciais que marcam a região.

Andar por Khiva é andar entre oficinas de artesãos, ouvir o toc toc dos martelos e cinzeis, o chamado para as cinco orações diárias, ver os teares em movimento.

 

A região chama-se Khorezm e tem também traços culturais próprios e uma longa história de conquistas, conquistadores e contribuições à ciência e à religião. Zoroastro (ou Zaratustra) é filho destas terras, quando aqui reinavam os império medo e persa aquemênida, dos tempos da Grécia clássica. Séculos depois, com a região já islamizada (séc VIII e XI), nasceu aqui Mohamed Al Khorezm, geógrafo, astrônomo e matemático que empresta seu nome aos termos latinizados “algoritmo” e “algarismo”. Seu livro “Al-Jabr” consagrou o termo (e o método) latinizado em “álgebra”. Zoroastro e Al Khorezm tem na cidade de Urgência, capital da região (passamos por lá) estátuas e parques que os homenageam.

Etnicamente a região de distingue um pouco do resto do país, com presença mais visível de de turcomenos e cazaques. Nas outras regiões e cidades pelas quais passamos predominava a presença de usbeques e tadjiques.

Usbeques, turcomenos e cazaques pertencem à família das etnias turco-altaicas ou turquicas, à qual pertencem também os turcos, cujas origens estão nessa região é que só chegaram à atual Turquia em torno do século XI através dos turcos seljúcidas. Os idiomas são parecidos, a cultura apresenta diversos pontos comuns. Tadjiques são de origem persa-iraniana, pertencem a outro grupo portanto, falam outra língua. A predominância, como era de se esperar, é dos usbeques, mas até onde pude notar os grupos parecem conviver em relativa harmonia. Se há preconceito ou com qual intensidade é difícil perceber em tão pouco tempo. Odil, que nos recebeu em casa em Bukhara, é usbeque e sua esposa é tadjique. Otabek, que nos levou às fortalezas e trouxe até Khiva, é usbeque mas veio o tempo todo ouvindo música tadjique no carro. Apenas em Samarcanda encontrei uma senhora tártara que pareceu querer me dizer que se sentia algo marginalizada, ou pelo menos foi essa a sensação que tive.

De todas as cidades, Khiva é a que mais parece parada no tempo, justamente por ter sido menos importante e ter, assim, mantido sua arquitetura mais preservada, ter sido menos vitimada pelas mudanças urbanísticas que em geral desfiguram os núcleos urbanos mais proeminentes e as capitais de maior porte. Quase não se vê carros na parte central, por exemplo. Nesse sentido é o cenário que mais remonta aos tempos idos.