Venezuela, retorno de Guaidó.

Mais um capítulo da crise na Venezuela: Guaidó retorna a Caracas.

Carnaval no Brasil mas a geopolítica não para. Esta semana o líder opositor Juan Guaidó retornou a seu país.

Para entender a crise venezuelana é importante lembrar que Guaidó havia saído do país recentemente, rumo à Colômbia. A situação é toda muito complexa pois Guaidó argumenta que o governo de Maduro é ilegítimo, fruto de fraude nas eleições de 2018. Com base na Constituição, Guaidó, presidente da Assembléia Nacional, declarou a presidência vaga, proclamou-se presidente interino e começou a exigir a saída de Maduro do poder. A mesma Constituição, ano entanto, dava a Guaidó o período de um mês para organizar novas eleições, o que não foi possível. A comunidade internacional dividiu-se no apoio a Maduro e a Guaidá.

Para mais detalhes, veja este post e este aqui também.

No proceso de buscar aumentar a pressão sobre Maduro, Guaidó saiu do país, indo à Colômbia, e então começou um tour por diversos países da região, reunindo-se com lideranças internacionais, sempre com o intuito de firmar seu nome como a opção viável a Maduro.

A manobra, porém, foi arriscada.

Por um lado, Guaidó corria o risco de não conseguir retornar ao país ou de ser preso no processo.

Por outro, ao fazer um tour (que incluiu o Brasil) e participar de jantares e diversas cerimônias, arriscou ter a sua imagem maculada por não estar junto com o povo venezuelano, vivendo o dia a dia do país, assumindo o risco de ser oposição, um líder “no exílio” que aos poucos poderia ser esquecido ou retratado como distante, tudo sua popularidade (e nesse sentido, legitimidade) aos poucos erodida por estar postura. Até a semana passada, até seus apoiadores avaliavam que sair da Venezuela foi um erro.

Esta semana Guaidó voltou ao país e conseguiu, mais um vez, lançar sobre si os holofotes da mídia internacional. Seus apoiadores avaliam que foi a medida certa. Se Guaidó busca se colocar como líder legítimo, este trabalho deve ser feito de dentro da Venezuela, não de fora, justamente para construir essa legitimidade. Sua chegada ao aeroporto foi acompanhada por representantes diplomáticos de alguns dos países que o apoiam. Seguiu-se então um discurso, o pedido de que haja manifestações no sábado e o anúncio  de que procurará conversar com diversos setores da sociedade, inclusive os sindicatos, a partir da semana que vem.

O caso segue sendo confuso pois, friamente, a mesma Constituição que serve para declarar vaga a presidência (devido à fraude), desautoriza Guaidó, já que o prazo de um mês para novas eleições foi ultrapassado.

A letra da lei, neste caso, parece que não será definitiva. O que ocorre é uma queda de braço na construção de narrativas sobre legitimidade que serão definidas a posterior, com base no apoio popular e nos desdobramentos que ainda estão por vir. Maduro tem apoio das for;das armadas e da memória que a população mais pobre tem dos anos de bonança do chavismo antes da atual crise, Guaidó busca tranquilizar os setores chavistas, colocando-se como alguém de conciliação e garantindo que não haverá perseguições.

Números tampouco ajudam. Pesquisa recente afirma que Guaidó teria, hoje, apoio de 61% da população enquanto Maduro apenas 14%, o que então levanta a questão de saber como um governo (supostamente) tão impopular consegue se manter no poder. Um argumento seria o apoio que Maduro ainda tem nas forças armadas. Há também quem diga que este número não é real, que Maduro ainda teria apoio de uma parte substancial da população e que Guaidó permanece desconhecido em diversas partes do país, apesar de ser conhecido na capital, Caracas.

Ou seja, como tantas vezes se viu na história, quem conseguir ficar no poder vai, depois, justificar sua presença e legitimidade com base na vitória, não no caminho percorrido dentro da regra.